Quando abro um livro de histórias para crianças, sou sempre surpreendido pelo tipo de letra e pelo seu tamanho. Letras antigas, serifadas e grandes. Mas é quando começo a ler que percebo o conforto de todas aquelas letras com patilhas, que se juntam para desenhar palavras, grandes o suficiente, para mal lhes dar atenção. E assim, concentrar-me no essencial: o texto. Para as crianças que estão a iniciar-se na leitura, o hábito fica. Quando pegarem num livro sem ilustrações, com letra de corpo pequeno e texto longo, a fonte vai ser-lhes tão familiar que nem dão por ela. Nos jornais e até na internet, as letras com patilhas continuam a ser as rainhas das leituras longas.

Imagem de “O Pónei Brilhante”, de Janey Louise Jones, edição Booksmile

O fenómeno da escrita e da leitura encerra em si diversos mistérios. O tipo de letra é apenas um pormenor, mas também ele cheio de mistérios. Na verdade, as letras serifadas não são sentidas por nós apenas pelo conforto que nos dão na leitura. Talvez por termos aprendido a ler com elas, é possível que também tenham impacto no valor que damos ao que é escrito. Em 2013, o cineasta americano Errol Morris fez uma experiência com a cumplicidade do New York Times, no sentido de perceber se os tipos de letra têm influência no crédito que damos ao que lemos.

O resultado levou-o a alterar o tipo de letra com que escreve, passando a usar um tipo de letra muito específico: a Baskerville!

Baskerville de John Baskerville (1706–1775)

A Baskerville parece ser assim, a mais credível das fontes. Remonta a 1750 e era já uma transição dos tipos de letra de estilo romano mais antigo.

Mas a mais conhecida de todas as fontes deste estilo é a Times New Roman. E apesar da sua origem remontar a 1931, foi nos computadores, com os processadores de texto, que ganhou fama… e desgaste. De resto, todas estas fontes romanas serifadas, chegaram-nos através do alfabeto romano e das letras que eram talhadas na pedra na Roma antiga e seu império. Embora a sua origem se perca no tempo.

Inscrição do santuário de sacerdotes augustais em Herculano (antiga cidade romana). Via Wikipédia

Fonte inesgotável

Para um designer que veio da escrita e dos jornais, o texto é mais que apenas um elemento a precisar de ser distribuído numa página. O texto é o elemento principal. E sim, precisa ser distribuído na página. E também é muito útil à composição, pois cria manchas fluentes que facilmente se moldam a imagens e outros elementos gráficos. Mas antes de se tornar uma mancha, precisa de ter assegurada a sua “dignidade”. E aqui as letras serifadas de estilo romano têm um papel fundamental.

Quando comecei a desenvolver os meus próprios projectos gráficos, senti a necessidade de ter um tipo de letra para o texto, que fosse uma base firme para a criação. Uma letra com a qual me sentisse seguro, que fosse versátil e mais ou menos intemporal. Uma fonte que após conhecer bem, se tornasse numa ferramenta poderosa.

Exercício com Australis

Depois de alguma experimentação, encontrei finalmente o que procurava. A Australis é uma fonte com serifas de estilo romano, com apontamentos antigos e modernos, fazendo dela uma híbrida. Desenhada pelo chileno Francisco Gálvez Pizarro e publicada pela Latinotype, ganhou o primeiro prémio no Morisawa Type Design Competition em 2002. Em 2012, a família foi completada, sendo actualmente constituída por três pesos (regular, bold e heavy) e respectivos itálicos.

Australis Pro

A Australis permite não só um texto agradável de ler, como serve ainda para qualquer outro uso, desde a titulação até à criação de logotipos. Alia a tradição e a modernidade, e apresenta caracteres elegantes, sofisticados e bem desenhados. Depois, para títulos e outros elementos, posso aventurar-me em busca de tipos de letra, que se adequem ao conceito do trabalho ou ao cliente e à sua imagem.   

Pormenor de 30 Anos, 30 Pessoas, 30 Histórias

(Neste post usei a fonte Libre Baskerville)

14 Janeiro, 2019

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